Friday, February 5, 2016

O Zika e as questões de gênero que ele traz


(AP Photo/Felipe Dana, File)

As suspeitas de que o vírus Zika possa estar relacionado com a microcefalia e outros problemas neurológicos em recém-nascidos tem gerado grande comoção internacional. Líderes estatais apressaram-se em pronunciar-se sobre o assunto e declarar políticas públicas de emergência, que em sua maioria possuem um público alvo: as mulheres.

É certo que as mulheres gestantes devem ser devidamente informadas das medidas preventivas para minimizar as chances de adquirirem a doença. No entanto, o que tem chamado a atenção em nosso continente, são as recomendações visando as mulheres em idade reprodutiva.

O temido vírus reabriu o ainda mais temido debate sobre direitos sexuais e reprodutivos. Os tabus latino-americanos sobre aborto e métodos contraceptivos, sempre permeados de discussões filosóficas e religiosas, voltaram a ser o centro das atenções diante de recomendações como “não engravidem” ou “abstenham-se de ter relações sexuais”. Recomendações estas direcionadas unicamente às mulheres, claro, porque os homens não tem nenhuma participação na gravidez de uma mulher...   

Em um continente onde o machismo conservador e o extremismo religioso ditam as regras sociais, o Zika provou ser mais do que uma questão de saúde pública e tornou-se uma questão de gênero.

A função do Estado, como principal garantidor de direitos, não é de decidir pelas mulheres se elas devem ou não engravidar e muito menos tratar a contracepção como se fosse uma questão exclusiva sobre mulheres e matematicamente planejada em TODAS as situações. Nossos líderes deveriam estar oferecendo alternativas, apoio, e sobretudo acesso a direitos, como o direito de gozar do mais elevado padrão de saúde sexual e reprodutiva.

Os direitos reprodutivos também são direitos humanos e incluem o direito ao planejamento familiar. Todo casal e todo indivíduo tem direito de decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos e de ter a informação e os meios de assim o fazer.

É fácil para um Estado declarar uma emergência, isentar-se da responsabilidade, e colocar o fardo nas costas das mulheres. Em períodos de catástrofes, e eu acho q podemos classificar a disseminação do Zika assim, a solidariedade é muito importante, toda a comunidade tem um papel a cumprir, mas a reponsabilidade de implementar medidas de prevenção, contenção e assistência a população afetada pertence exclusivamente ao Estado e seus agentes, e isso nenhum mosquito pode mudar.


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