Tuesday, August 28, 2018

O seu voto representa seus valores ou o seu ódio?




Cada quatro anos quando nos preparamos para as eleições surgem os mesmos dilemas e pseudo-respostas: “ah ele rouba mas faz”; “não tem outra opção”; “é o único que tem chance...”; “é o menos pior...”. Mas até onde vai a nossa tolerância e onde estão os nossos valores como sociedade?

Atualmente no Brasil, para alguns, existe uma bipolaridade cega, ou você é “de direita” ou “de esquerda” - uma espécie de Guerra Fria Tupiniquim.  Dois monstros que se odeiam e foram meticulosamente alimentados por notícias sensacionalistas (e frequentemente falsas), gerando medo, intolerância, e uma realidade equivocada.

O tempo nos mostrou que os dois supostos lados possuem vertentes corruptas, e o brasileiro está com toda razão cansado e desconfiado de todo e qualquer político. No entanto, a visão de mundo ficou tão restrita para alguns eleitores, que o objetivo deixou de ser votar segundo suas convicções, e tornou-se votar contra o "outro lado". 

Nesse ambiente de medo, alimentado e realimentado pelas redes sociais, vale tudo se no final o derrotado for o outro partido que não representa a sua ideologia política- custe o que custar! Mas será que vale tudo mesmo? O que isso diz sobre nossa integridade moral?

Eu nunca vi uma eleição em que os candidatos fossem perfeitos e que todos os eleitores estivessem a favor de todas as suas propostas, mas onde está o limite?

Quando um candidato baseia sua campanha em uma política de medo, em discursos abertamente racistas, homofóbicos, pró-tortura, misóginos e anti-democráticos – aí está um limite claro! São esses realmente os princípios que lhe representam? Porque nada disso pode ser justificado, nem que o discurso seja para ganhar do “outro lado”.  Esses temas ultrapassam visão política, estamos falando de valores, de direitos e de humanidade! 

“Ah mas se o meu candidato não ganhar o Brasil vai virar Venezuela!” Ok, vamos com calma! Primeiro que "Venezuela" nessas eleições se tornou o que era "Cuba" no passado, ou seja, uma metáfora para o medo da esquerda, do comunismo, do socialismo (que não são a mesma coisa, mas como estamos em um Brasil bipolar, em que para uma boa parte da população "esquerda" é tudo igual, vamos imaginar que seja assim). E tá tudo bem! Se sua visão política difere de uma ideologia de esquerda, por questões históricas ou sociais, ótimo! É para isso que temos um estado democrático. No entanto, sejamos sensatos ao comparar duas nações distintas. 

Brasil e Venezuela são países diferentes, com geografia, populações, economias, políticas e histórias diferentes. Se a idéia é fazer comparações aleatórias, existem países no mundo com políticas de extrema direita, muitos em ditaduras (tão queridinhas por alguns ultimamente), que estão em crises piores que a Venezuela- é só ver a migração massiva de africanos para Europa e as políticas dos países de onde eles são originários. Existem também países com políticas socialistas que estão super bem, como alguns países nórdicos ou mesmo nosso vizinho Uruguay! Eu não defendo o atual regime político da Venezuela, nem as inúmeras violações de direitos humanos naquele país, mas argumentos oportunistas e descontextualizados comparando países e culturas distintas não são credíveis

A minha reflexão é: o seu voto vai ser um voto de medo e ódio pelo "outro lado" ou vai ser um voto que te representa? E sinceramente, se idéias como as apresentadas pelo candidato Bolsonaro realmente te representam está na hora de fazer um sério exame de consciência!

Se sua visão para o Brasil é melhor interpretada por políticas consideradas de direita, vote por um candidato de direita! Mas não perca seus princípios e valores nessas eleições! Existe sim um limite! É o que define nossa humanidade, é o que define quem somos como seres-humanos! 




Friday, February 5, 2016

O Zika e as questões de gênero que ele traz


(AP Photo/Felipe Dana, File)

As suspeitas de que o vírus Zika possa estar relacionado com a microcefalia e outros problemas neurológicos em recém-nascidos tem gerado grande comoção internacional. Líderes estatais apressaram-se em pronunciar-se sobre o assunto e declarar políticas públicas de emergência, que em sua maioria possuem um público alvo: as mulheres.

É certo que as mulheres gestantes devem ser devidamente informadas das medidas preventivas para minimizar as chances de adquirirem a doença. No entanto, o que tem chamado a atenção em nosso continente, são as recomendações visando as mulheres em idade reprodutiva.

O temido vírus reabriu o ainda mais temido debate sobre direitos sexuais e reprodutivos. Os tabus latino-americanos sobre aborto e métodos contraceptivos, sempre permeados de discussões filosóficas e religiosas, voltaram a ser o centro das atenções diante de recomendações como “não engravidem” ou “abstenham-se de ter relações sexuais”. Recomendações estas direcionadas unicamente às mulheres, claro, porque os homens não tem nenhuma participação na gravidez de uma mulher...   

Em um continente onde o machismo conservador e o extremismo religioso ditam as regras sociais, o Zika provou ser mais do que uma questão de saúde pública e tornou-se uma questão de gênero.

A função do Estado, como principal garantidor de direitos, não é de decidir pelas mulheres se elas devem ou não engravidar e muito menos tratar a contracepção como se fosse uma questão exclusiva sobre mulheres e matematicamente planejada em TODAS as situações. Nossos líderes deveriam estar oferecendo alternativas, apoio, e sobretudo acesso a direitos, como o direito de gozar do mais elevado padrão de saúde sexual e reprodutiva.

Os direitos reprodutivos também são direitos humanos e incluem o direito ao planejamento familiar. Todo casal e todo indivíduo tem direito de decidir livre e responsavelmente sobre o número, o espaçamento e a oportunidade de ter filhos e de ter a informação e os meios de assim o fazer.

É fácil para um Estado declarar uma emergência, isentar-se da responsabilidade, e colocar o fardo nas costas das mulheres. Em períodos de catástrofes, e eu acho q podemos classificar a disseminação do Zika assim, a solidariedade é muito importante, toda a comunidade tem um papel a cumprir, mas a reponsabilidade de implementar medidas de prevenção, contenção e assistência a população afetada pertence exclusivamente ao Estado e seus agentes, e isso nenhum mosquito pode mudar.